LARANJEIRAS um "Muséu a Céu Aberto"

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Museu A Céu Aberto IX



A RESPONSABILIDADE SOCIAL DA JUVENTUDE LARANJEIRENSE

A juventude laranjeirense, tal como nós, Movimento Anti Palha da Cana, vem aos poucos expondo sua insatisfação quanto a seu futuro e com o futuro da nossa cidade. Aqui e ali surge um texto ou outro expressando esse sentimento de insatisfação: “Política, Politicalha, Politicagem”; “Rio Cotinguiba ou esgoto a céu aberto?[1]’” “Dinheiro não. Beleza pura[2].  Se alguma esperança de futuro diferente para Laranjeiras se pode almejar, só se pode depositá-la na juventude, mais especificamente na juventude estudantil.
Todavia, quando a questão é colocada, é recorrente ouvir: que não vai dá em nada, que não adianta nada, que este tipo ação crítica sociopolítica não tira voto, enfim, que “o domínio político da palha da cana” é uma realidade bem estabelecida contra a qual é inútil qualquer reação, este ponto vista é próprio de quem lida com o presente, com o aqui e o agora, de quem tem urgência em projetar-se, lançar-se sociopoliticamente com propósito de ou obter vantagens financeira e econômica imediata, ou dar um sentido a própria vida, de qualquer modo, pensa com a mesma estrutura mental que a Palha da Cana. O centro das suas preocupações não é Laranjeiras e sim, si mesmo.
As mudanças socioculturais e política que tanto almejamos, na maioria das vezes, se dão em dimensão e em velocidade diferente daquela que esperamos. O Brasil, por exemplo, após a redemocratização depois de 25 anos de esforço social, prestes a ser considerado a sexta economia do mundo, conseguiu avançar, segundo o relatório da ONU, apenas 1 ponto no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), por conseguinte, não basta uma simples mudança de gestão política para colocar Laranjeiras na rota do desenvolvimento.

Fonte:http://itamarfo.blogspot.com/2005_09_01_archive.html 

 A pergunta que se faz é: A Palha da Cana que é forte ou o povo de Laranjeiras que está fraco? Os argumentos corriqueiros são: que o povo é pobre, de escolaridade baixa e de má qualidade, mas, João Mulungú[3], um jovem 23 anos, escravo, analfabeto, que não era tido nem como gente, como pessoa, peitou a Palha da Cana demonstrando a sua consciência e responsabilidade social para com a sua comunidade de afro descendente, e foi pela Palha da Cana, imolado. Posteriormente foi reconhecido oficial e historicamente como o primeiro herói negro no Brasil, pela sua resistência e luta libertaria em prol da sua comunidade. Enquanto seus algozes só são conhecidos por quem consulta os documentos oficiais da época.
 Porém, como se diz: ninguém é profeta em sua própria terra, JOÃO MULUNGÚ É POUCO VALORIZADO, NÃO RECEBE DA COMUNIDADE AFRO DESCENDETE LARANJEIRENSE O RECONHECIMENTO MERECIDO, porque da Palha da Cana não se pode esperar reconhecimento ou mérito de um escravo rebelde. A Juventude estudantil, predominantemente, afro descendente de Laranjeiras,  tem um passado de luta e resistência e em quem se inspirar para continuar a luta de libertação plena, que implica no exercício da cidadania.  
Não virá um príncipe no cavalo branco, nem um messias, nem um salvador da pátria, tão pouco a Palha da Cana fará ALGO pela juventude laranjeirense, posto que, não o fez até hoje, resta a esta mesma juventude pegar sua realidade pelas orelhas sacudi-la e ir enfrente. Para quem não tem sobrenome, não herdou terras nem cana o único caminho democrático e ético é ESTUDAR, e este verbo tem sido pouco conjugado em nossa cidade, ao contrario do verbo CURTIR.
Fonte: Google imagens
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ESTUDAR está ligado à idéia de futuro, de competência, de autonomia, de dignidade, e de sabedoria. Enquanto, o verbo preferido da juventude laranjeirense tem sido predominantemente CURTIR, que está ligado à idéia de presente, prazer imediato. Porém, passado o deslumbramento inicial com a curtição de cerveja, moto e motel, quatro anos depois, a jovenzinha que fora garota dourada tornou-se garota rodada, e agora caminha de cara fechada com uma pobre criança pela mão em direção ao foro para pedir pensão. Quanto aos rapazes, entre um e outro subemprego ou respondem a um processo de investigação de paternidade ou estão no dizer popular: “com a cara pra cima e o zóio rodando”, ou seja, sem perspectiva de vida. Isso não significa negar a curtição que é própria da juventude, mas, só conjugar o verbo curtir não gera expectativa de futuro digno nem para essa juventude nem para Laranjeiras.
Fonte: Google imagens

Estudar é diferente de freqüentar a escola, embora freqüentar a escola seja um elemento essencial do processo. O que comumente se vê é o aluno (a) passar com o caderno embaixo do braço - “CULTURA AXILAR” -, e na escola, deixá-lo na carteira e ir aos corredores ou ao pátio papear, quando não, utilizá-lo como assento no banco da praça, na mureta da prefeitura enquanto aguarda o transporte escolar; ou seja, aquilo que deveria ser aprendido, que deveria estar na cabeça, coração e mente do aluno (a), está lhe servindo de assento. Que conclusão essa atitude pode sugerir?...  
É impossível pensar outro futuro para laranjeiras e sua juventude sem repensar essa conduta estudantil, não obstante, alguém pode vir contra-argumentar que isso acontece em todo lugar, porém, quem está sendo considerado é o estudante laranjeirense. E pra coroar esse quadro de descompromisso e descaso para com o estudo, tem-se a praga da cola no dia da avaliação, quando todo mundo tenta colar de todo mundo, e como ninguém sabe nada é um Deus nos acuda. Alguém sinicamente pode dizer _ah! “quem não cola não sai da escola”, ou que “a cola é uma instituição nacional”, mas nenhum empregador confere nota de candidato no momento de admitir um empregado, além do mais, atualmente emprego no serviço público só através de concurso e nas empresas privadas por currículo e entrevista, ambos, por competência.   


Nesta última década o Governo Estadual, com o pré-vestibular, e o Governo Federal, ambos ampliaram de forma significativa as oportunidades de educação Media, Tecnológica, Profissionalizante e Superior para o jovem de escola pública de classe popular: “ SISU, PRO UNI, ENEM, AS COTAS, FIES, Educação a distância”, sem falar na profusão de cursos superiores privados, os quais se podem concorrer até com um kg de alimento não perecível. Donde se pode concluir que a possibilidade de acesso ou não a essa realidade educacional está claramente nas mãos do aluno (a) estudioso e não nas do aluno (a) colador. A cola é uma forma de fraude e corrupção que se volta contra o próprio aluno, e é costume entre os jovens taxar os políticos de corruptos, sem se darem conta que colando estão atuando corruptamente, além do mais, essa fraude se volta contra eles próprios quando mais precisam.
Para não deixar toda a responsabilidade da má qualidade da educação somente sobre o aluno é necessário pensar outra maneira de conduzir a educação em Laranjeiras, pois, esta implica uma relação ensino/aprendizagem, onde o papel do ensino está centrado no professor[4] e a aprendizagem no aluno. Não se pode pensar em um sem pensar no outro.
O aparente descompromisso do aluno laranjeirense para com o estudo é conseqüência, no nosso ponto de vista, também, de desamparo por falta de zelo dos pais para com a educação dos seus filhos, e da sociedade laranjeirense como todo que não tem a educação como uma bandeira de luta.
Os alunos do Ensino Médio que estudam no colégio Zizinha Guimarães são provenientes dos povoados ou da periferia da cidade, alunos estes cujos pais, em sua maioria, possuem baixa escolaridade, mas isso não os exime de zelar pela educação dos seus filhos, ficando esses alunos a mercê do seu próprio esforço e do que o colégio possa lhes proporcionar. Laranjeiras ainda que tenha toda possibilidade de criar um clima de estudo, como já houve em outras épocas, um Centro tão pequeno de fácil acesso, três escolas grandes e próximas, todas dotadas de biblioteca, os alunos não estudam, ou melhor, não sabem estudar, desanimam e fogem do problema.
Há ainda duas bibliotecas públicas que os alunos freqüentam-nas para fazer pesquisas, no sentido de copiar os conteúdos, não no sentido de estudar e se apropriar do conhecimento. Estes não são incentivados a estudar em grupo, e sim a fazer trabalhos de grupo, a compartilhar tarefas sem interagir mentalmente, quando se sabe, que o estudo em grupo é muito mais proveitoso, pois a interação mental favorece a compreensão e conseqüentemente a retenção do conhecimento. Ou seja, os locais apropriados para o estudo em grupo estão aí à disposição, o ensino precisa dar-se conta disso e os estudantes também. Laranjeiras precisa criar clima de estudo.
Fonte:http://livroerrante.blogspot.com/2011/06/crianca-e-o-adolescente-brasileiros.html 

A internet, por sua vez, já é uma realidade educacional em Laranjeiras, é um instrumento que abre o mundo para o estudante, embora as práticas de ensino/estudo não tenham mudado, estão com a mesma característica do pesquisar na biblioteca. O aluno acessa o conteúdo, copia e cola, imprime e entrega ao professor, o conhecimento, por tanto, passa pelo aluno mas não fica com ele , enquanto a carga de trabalho do professor continua a mesma, assim como, o desempenho escolar do aluno, abaixo da crítica. O aluno de segundo grau de Laranjeiras não distingue: mas, de mais, me de mim, não domina as quatro operações, lêem mal e conseqüentemente escrevem mal. Como romper esse círculo vicioso? Como mudar essa realidade? Não venhamos a dizer que a culpa é só dos políticos da Palha da Cana, do governo, da baixa qualidade do ensino, do papa, do bispo e de quem mais o estudante queira culpar.  Estudar é pensar, é esforço continuado, é dedicação, dói, queima neurônios, queima pestanas, esquenta moringa, esquenta os miolos, ferve juízo, fica de bunda quadrada de estar sentado, assim é oportuno atentar para o apelo de Zé ramalho já cantava:
Vocês que fazem parte dessa massa.
Que passa nos projetos do futuro.
 É duro tanto ter que caminhar.
 É dar muito mais, do que receber.
E ter que demonstrar sua coragem.
 A margem do que possa aparecer.
 E ver que toda essa engrenagem,
Já sente a ferrugem lhe comer...
Eh, ôô... vida de gado,
 POVO MARCADO, ê
Povo feliz...”[5]

Concluindo, o futuro de Laranjeiras está diretamente relacionado ou dependente da responsabilidade social e da qualidade moral do seu estudante. É ele quem constituirá o quadro político que virá a construir outra realidade para Laranjeiras que não essa que ai está.  Já que, o que se vê, atualmente, são acordos políticos para importar candidatos, importar administradores que desconhecem a realidade de Laranjeiras, ou seguir fazendo rotação das elites, que não são elites intelectuais, administrativas, científicas, nem tecnológicas e sim pessoas que estão dispostas a fazer o jogo da Palha da Cana, ocupando os diferentes cargos administrativos e impedindo o desenvolvimento da nossa cidade. Enfim, os jovens laranjeirenses que já anseiam por um futuro de diferente para Laranjeiras, ou assumem a sua responsabilidade com essa transformação ou eles seguirão confirmando o dito de que CADA POVO TEM O GOVERNO QUE MERECE, no caso o Laranjeirense merece o governo da Palha da Cana. CASTRO ALVES, O POETA DOS ESCRAVOS, esperançoso no progresso e na justiça social escreveu:

 Oh! Bendito que semeia
Livros, livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma,
É germe que faz a palma.
É chuva que faz o mar.
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse rei dos ventos
Ginete dos pensamentos
Arauto da grande luz![6]     
O grande filósofo educador brasileiro Huberto Rohden também disse: “A tarefa do educador como seu nome indica é de um indutor, um criador de ambiente favorável para seus educandos.[7] Esse mesmo educador disse ainda:

“QUEM PODE, DEVE. E QUEM DEVE E PODE E NÃO FAZ – CRIA DÉBITO. E TODO DÉBITO GERA SOFRIMENTO.”[8]

ENTÃO, JOVENS LARANJEIRENSES, A ÚNICA SAÍDA PARA NÓS É ESTUDAR!



Laranjeiras, novembro de 2011
Movimento Anti Palha da Cana.
antipalhadacana@gmail.com



[2] Entregue entre pelas ruas da cidade.
[5] Música: vida de gado – Zé Ramalho.
[7] O home e o universo, pág. 57.
[8] Novos Rumos para a educação. 

5 comentários:

  1. Bom texto. É uma pena que diante de um cenário tão favorável à garduação, poucos jovens se tocam que estão deixando a oportunidade escorrer entre os desdos. Não há como ajudar quem não querem ser ajudado. E o futuro de Laranjeiras permanece uma grande interrogação.

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  2. É triste admitir essa fatidica realidade juvenil laranjeirense, contudo jovéns, vocês têm nas mãos e na mente as armas e o poder para reverter bruscamente esta realidade e alterar consideravelmente o futuro que lhes aguarda.

    Parabéns ANTI PALHA DA CANA!!!

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  3. esse é o granda problema da nossa cidade.enquanto os jovens não estão preocupado com o seu próprio futuro,os políticos riem do futuro promissor que eles terão em nossa cidade.

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  4. Mudar este quadro é simples. Não precisa nem sair de casa para votar na eleição. Ninguém votará e surgirá então a insatisfação do povo. Outra vertente é votar e cobrar do administrador da cidade.

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  5. "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará."(JESUS CRISTO)

    “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.” (Platão)

    “Não há nada bom nem mau a não ser estas duas coisas: a sabedoria que é um bem e a ignorância que é um mal.”(Platão)

    Infelizmente,como no mito da caverna (A REPUBLICA DE PLATÃO) nossos jovens estão iludidos com as sombras da vida projetadas em suas mentes através do poder midiático, principalmente a televisão, ditadora de moda,costumes (maus costumes),promotora de políticos sem escrúpulos.
    Televisão "babá dos baixinhos" alienadora de mentes, devastadora de consciência A SERVIÇO DA CLASSE OPRESSORA, formadora de teleguiados (nada contra a televisão, más sim a forma maléfica como é produzida e com exceção a poucos programas).
    Enquanto isso a educação vai ficando para trás, o futuro cada vez mais distante, e a miséria... essa sim cada dia maior, más... "O BRASIL É O PAÍS DO FUTEBOL." JOVENS ACORDEM!!!
    LAURÊNCIO LISBÔA.

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